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Biblio Tubers

Pensamos a escola como sistema aberto, capaz de refletir a sociedade e de responder aos desafios contemporâneos. Acreditamos no poder da partilha e das redes. Defendemos os recursos abertos e a biblioteca como centro de saber na escola.

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Promoção da poesia em ambiente virtual

Proposta 4 | Cântico Negro de José Régio, por Diogo Infante

Abril 17, 2020

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Dando continuidade ao Plano de trabalho síncrono em tempo de quarentena, o Biblio Tubers apresenta a quarta proposta, dedicada à poesia, que poderá ser implementada pelos professores bibliotecários, no horário reservado à biblioteca, ou por qualquer professor que queira trabalhar o sentido crítico com os seus alunos.

Esta proposta, à semelhança das restantes, pode ser adequada e destina-se a alunos do 3.º ciclo e do ensino secundário.

Apresenta-se abaixo a proposta de exploração, organizada em quatro momentos:

 

Momento 1

Os alunos visualizam o vídeo em que Diogo Infante declama, de forma muito intensa, o poema "Cântico Negro", de José Régio.

 

Momento 2

O professor,  num chat, num fórum ou por vídeo conferência, pede que os alunos se incluam num de três grupos:

  • Os que gostaram do poema,
  • Os que ficaram indiferentes,
  • Os que não gostaram.

Cada grupo, durante 15 minutos, discute as razões da sua posição e nomeia um porta-voz que as apresentará aos colegas.

 

Momento 3

Os alunos voltam a visualizar o vídeo, acompanhando a declamação com a leitura do poema. Voltam a reunir em novos grupos que serão constituídos por elementos de cada um dos três grupos iniciais.

Nestes novos grupos, serão debatidas as razões pelas quais gostaram ou não do poema, devendo este debate ser acompanhado de tópicos de discussão, que ajudem os alunos a refletir sobre a mensagem do poema.

Uma vez mais, deve ser escolhido um porta-voz de cada grupo.

Sugerem-se alguns tópicos:

  • Utilização do "preto e branco" e a expressividade da linguagem corporal do ator,
  • A importância das frases negativas no poema,
  • A identificação dos obstáculos que o poeta encontra, por oposição às restantes pessoas que têm "estradas",
  • A coexistência de Deus e do Diabo.

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Momento 4

O porta-voz de cada grupo apresenta as suas conclusões e o professor lança, caso necessário, novos tópicos de discussão que levem os alunos a interpretar a mensagem do poema de forma crítica.

 

Sugere-se, a título de exemplo:

Por que me repetis: "vem por aqui"? - O poder do outro sobre nós, a tentativa de manipulação;

Não sei para onde vou - A imprevisibilidade da vida, das relações, da sociedade;

Sei que não vou por aí! - Pensar por si próprio, analisar os dados e a realidade envolvente e tomar decisões fundamentadas.

Estas propostas são apenas sugestões, cabendo a cada professor proceder às alterações que melhor entenda.

 

Reproduz-se aqui o poema na íntegra.

“Cântico Negro”

“Vem por aqui”- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
—Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: “vem por aqui”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
a ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei para onde vou,
Não sei para onde vou
—Sei que não vou por aí!

José Régio

 

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